domingo, 7 de julho de 2013

Short cuts do mar sem fim

Sumé

Cícero Sumé e o cofre. Sabedoria intuitiva e meio sorriso inteiro.
Em Cabedelo todo mar é muito, até em dia de chuva. Aqui chove como Deus gosta, nessa época do ano. E mesmo assim os olhos que olham pro mar não encontram fim. Tem barco, gaivota desavisada, chuvisco que se horizonta. Mas fim de mar... isso, do mar se acabar, isso não tem, não.

Há coisas que, de princípio, são incompreendidas. Carecem de explicação. Ou não. Haverá entendimento para um cofre plantado no cimento da calçada, em frente ao restaurante do Cícero Sumé? Haverá, sim. Mas de princípio, só estranheza e riso.

Lá dentro, entre areias e mesas e chapéus de palha, um negro alto, vistoso e bem humorado circula entre clientes, pescados, camarões e fogo de cozinha. O dólman (palavra que vem do turco dolaman, que pode ser traduzida como manto) lhe torna mais elegante, mais altivo em sua simplicidade.

Sumé faz a comida, serve os pratos e depois vem à mesa conferir a satisfação com seu paladar. No começo, a gente acha que nada ali vai dar certo. Mas dá. No restaurante dele, a chuva fina invade as mesas, a areia se mistura ao passar lento das horas, tudo tem ritmo próprio. Abre meio sorriso que vale por um inteiro (está fazendo um tratamento dentário que lhe impede de gargalhar abertamente). E fala, e fala, e como fala o Sumé.

A ciência do cofre

Fico à vontade para perguntar sobre a mania de cofres (há outro, no centro do restaurante). Sumé não resiste e ri um riso mais solto, mesmo com a falta dos dentes. "Isso ai é meu marketing, minha referência". Me espanto. Como assim, Sumé? Ah, o cabra vem aqui, come e vai embora. Depois encontra com outro fala do restaurante. E diz, ali... aquele lugar que tem boa comida... aquele... do cofre. E então o outro diz: Ah, eu sei, o do cofre. Pronto, é a minha referência. A ciência simples e funcional do cofre. A sabedoria intuitiva de Sumé. Quem disse que o mar tem fim?




Paris - Montevidéu. Quem disse?

O Mercado do Porto, em Montevidéu.
Há uma ponte imaginária entre Montevidéu e Paris. Uma esquina que une o Mercado do Porto com o Quartier Latin. Quem sabe, uma invenção de Hugo Cabret. A mesma estação que acolheu os sonhos daquele menino, em Paris, abriga o sabor mais genuíno do mercado do Porto, em Montevidéu.

A parrilha em brasa, no Uruguai...
...e os frutos de um mar distante, no Quartier Latin.
Uma viagem imaginária como se não houvesse precisão de nexo entre uma realidade e outra. Como se o fogo e o fruto fossem o elo que une realidades tão distante e distintas. Como se a existência de um mar sem fim fosse apenas um detalhe entre o Cone Sul e a Velha Europa.

Quem disse que o mar tem fim?
Eu, menino andante, caminheiro de estradas outras, percorro desprovido de senso ou direção os caminhos que vão dar nestas duas pontas, ou mais. Ao sabor do vento, na velocidade de um tempo que não acaba nunca. E que quase sempre me faz acreditar que a vida faz sentido. Volta e meia me pego pensando: Quem disse que o mar tem fim?


 

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